Entrevista

:

A função dos sonhos

 

Por: Dr. Fernando Carlos Gonçalves

 

 

 

 

A vários anos acompanho o trabalho de Regis Mesquita. Seu interesse pelo mundo dos sonhos sempre foi muito grande. Com um enorme senso de disciplina e perseverança anotou e analisou mais de 4000 sonhos. No seu trabalho terapêutico acompanhou a transformação interior de centenas de pessoas e, como professor, treinou um grande número de indivíduos na arte de utilizar os sonhos como ferramenta para a auto-transformação. Neste primeiro número do "Consciência", fui encarregado de entrevistá-lo.

 

Sabemos que na natureza tudo possui uma razão de ser, nada existe por acaso. No caso dos sonhos qual é a função deles?

Na realidade são funções. A principal função deles é apresentar para o próprio ser humano, de uma outra forma, as condições em que ele se encontra. Ou seja, quando nós dormimos a nossa mente continua funcionando, mas o que é externo ao indivíduo perde força. Neste momento a mente está mais ligada ao que acontece dentro do ser humano. Quando produzimos um sonho, este sonho acaba refletindo o que cada indivíduo tem "dentro" de si. É sempre assim, mesmo quando é um sonho premonitório onde ele sonha, por exemplo, que a mãe vai morrer. Este tipo de sonho só acontece porque dentro do indivíduo tem um lado dele que está ligado, que está se preparando antecipadamente para este momento. Às vezes a consciência da pessoa nem sabe, mas sua mente total já está se preparando para enfrentar determinadas situações. Portanto este sonho premonitório relata algo que o indivíduo já tem dentro dele.

 

O conteúdo do sonho pode vir de fora do indivíduo, mas sempre está ligado ao que ele é?

Exato, no momento do sono estamos mais abertos para outros níveis de consciência. Durante os sonhos estes novos conhecimentos podem se manifestar para a consciência mais ordinária (aquela que temos quando acordados). Mas nem tudo vem "de fora". A verdadeira fonte de conteúdos para os sonhos é a própria mente. Os sonhos estão sempre relacionados com a vida que a pessoa está tendo no aqui-agora. Se a pessoa é uma pessoa super orgulhosa, cheia de si, o sonho dela pode começar a trazer dicas e informações que vão estar dizendo para ela "olha, não é bem assim não", "se você seguir este caminho não vai ser bom para você". Lógico que estas dicas aparecem na linguagem dos sonhos. Então, esta é a principal função dos sonhos.

 

O sonho traz informações sobre o próprio indivíduo. Então seria muito bom para nós sabermos que informações são estas ...

Não tenha dúvida. Nós conseguimos aproveitar muito pouco destas informações. É um recurso enorme desperdiçado, porque os sonhos estão aí para facilitar nossas vidas. Na realidade, o que acontece com os sonhos é mais o menos o que acontece no nordeste quando vemos toda aquela água dos açudes sendo desperdiçada e ali perto os homens morrerem de fome por não aproveitarem aqueles recursos.

 

Você acha que com a evolução do ser humano este recurso será melhor aproveitado?

Espero que sim. Não só as informações que os sonhos nos trazem, mas também a água e toda a natureza. Na realidade, isto já seria possível hoje. Nós temos recursos disponíveis que facilitam em muito o trabalho cotidiano com os sonhos. Eu mesmo já treinei inúmeras pessoas na arte de analisar os próprios sonhos.

 A análise dos sonhos tem suas origens no conhecimento que o ser humano vem acumulando ao longo de milhares de anos. O ser humano sempre buscou se aprimorar e evoluir, por isto seu interesse pelos sonhos. O interesse pelos sonhos é o interesse pelo desenvolvimento pessoal. 

 

Qual é a vantagem de se aprender a analisar os próprios sonhos?

A primeira vantagem é a autonomia. A pessoa não necessita de ninguém mais para ter acesso a este conhecimento. A segunda vantagem é que esta autonomia leva à um processo de crescimento muito grande, porque é ela mesmo que vai estar interpretando, é ela mesmo que vai saber o que está no seu interior. Mas a principal vantagem é a possibilidade da pessoa utilizar este recurso para um constante aprimoramento. Se o sonho nos fala sobre nós mesmos e se nós conseguimos decodificá-los, teremos informações mais do que o suficiente para avaliarmos o curso de nossas vidas, nossos valores, nossas formas de ser, crenças e muito mais. Eis porque analisar os sonhos possibilita auto-transformação, amadurecimento, evolução e aprimoramento no dia-a-dia.

 

E quando uma pessoa "não sonha"?

Todo mundo sonha e sonha várias vezes por noite. Algumas pessoas tem mais dificuldades para se lembrar dos sonhos. Estas pessoas podem e devem potencializar estas lembranças. O mais importante é que quando vamos realizar uma análise pela técnica da revivência dos sonhos nós não precisamos ter o sonho inteiro para trabalhar com ele. Nós podemos trabalhar com uma pequena parcela do sonho. Quanto mais souber do sonho melhor. Mas não é estritamente necessário. Se a pessoa se lembrar de um pequeno fragmento deste sonho já dá para trabalhar.

Uma coisa que pouca gente se dá conta é que a memória dos sonhos não são apenas imagens e pensamentos. Faz parte destas memórias a emoção e a sensação corporal. Muitas vezes as pessoas não lembram dos sonhos que tiveram à noite, mas assim que elas acordam têm uma sensação ou um sentimento que pode ser uma memória do sonho. Às vezes uma dor, uma palpitação ou um sentimento de felicidade que sentimos ao acordar podem ser memórias de um sonho. É por isto que devemos avaliar como estamos ao acordar para podermos utilizar estes dados, se provenientes dos sonhos, na hora de analisá-los. Assim, eu afirmo que as pessoas tem condições de se lembrar dos sonhos pelo menos o mínimo para trabalhar com eles.

 

Você falou em analisar os sonhos pela técnica da revivência dos sonhos, como é isto?

São técnicas específicas para trabalhar com conteúdos psíquicos e espirituais presentes nos sonhos. A forma de fazer isto o próprio nome já diz: revivemos os sonhos dentro de nossa mente. E a pessoa, a partir desta revivência dos sonhos, intervém no sonho em busca do conhecimento. Em busca do conhecimento intelectual, do conhecimento emocional, corporal e espiritual. Ou seja, é na inter-relação que a pessoa faz com o próprio sonho (revivido) que ela vai decodificando as mensagens dos sonhos.

 

 

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